Aspectos culturais e simbólicos do uso dos enteógenos

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O uso intencional de substâncias psicoativas com o objetivo de se criar estados alterados de consciência é uma prática que existe há milhares de anos. Vários grupos de animais (desde os mais primitivos) usam substâncias psicoativas com a intenção de ficarem "intoxicados".Ex: Manduca quinquemaculata (mariposas) que se "alimentam" das flores de Datura meteloides (planta rica em potentes alcalóides com propriedades psicoativas como a atropina) (Samorini, 2002), javalis e primatas que cavam a terra em busca das raízes do poderoso arbusto eboka (Tabernanthe iboga), planta utilizada nas cerimônias das religiões Bwiti, presentes no Congo e no Gabão (África) (Samorini, 2002; Labate, 2003), etc...

Diferentes povos nos mais variados ecossistemas do planeta praticaram e praticam técnicas as mais diversas para atingirem estas alterações de consciência: jejuns, privações sensoriais, tambores, danças e, não menos importante, drogas. baseado em entrevistas e trabalho de campo em diversas partes do mundo, afirma que a "descoberta" dos efeitos de algumas plantas (Cannabis sp.,Tabernanthe iboga, café, etc) foi realizada através da observação do comportamento de alguns animais sob efeito destes vegetais.
O uso de enteógenos por seres humanos existe há, pelo menos, 50 mil anos Em praticamente todos os cantos da Terra existe ou existiu alguma cultura que usa ou usou estes seres vivos com características especiais para as mais diversas finalidades. Dentre alguns destes podemos citar: 


(a) Soma (Supostamente Amanita muscaria), cogumelo paleo-siberiano utilizado por caçadores coletores das tribos Tungue e Koriak na Eurásia (b) Peiote (Lophophora sp.), cacto cultuado pelos Astecas e atualmente pelos índios huicholes do, possuí mais de 55 alcalóides diferentes .(c) Teonanacatl (Psilocybe sp.), cogumelos utilizados ritualmente pelos Maias, Mazatecas e outros grupos indpigenas na região de Oaxaca, México , guatemala e varias outras civilizações antigas.(d) Ololiuqui (Rivea corymbosa, Ipomoea violacea), a trepadeira mágica dos Astecas e Mazatecas, ainda hoje seus descendentes a utilizam com finalidades divinatórias, terapêuticas e mágicas (e) Bangue (Cannabis sativa, C. indica, C. ruderalis), planta que se encontra cultivada em praticamente todo o planeta, seu uso como medicamento, sacramento oupara fins recreativos permeia a história de povos na Índia (os sadhus, ou homens santos), na África (principalmente Etiópia e Serra Leoa), Ásia (usada para fins meditativos no Budismo Tântrico, por exemplo), Américas (tribos indígenas como os Cuna no Panamá, os Cora, Tepehua, e os Tepecanos no México a chamam de Santa Rosa, Rosa Maria, etc, e algumas tribos brasileiras também a utilizam, por exemplo, para fazer roçado, como os Tenetehara do Maranhão) embora o principal psicoativo presente na Cannabis sp. seja o já amplamente conhecido Δ9 -tetrahidrocanabinol, em um recente simpósio (I Simpósio Cannabis sativa L e Substâncias Canabinóides em Medicina, São Paulo, 15 e 16 de abril de 2004 – CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, Dep. De Psicobiologiada UNIFESP/EPM e SENAD Secretaria Nacional Antidrogas) foram relatadas mais de 66 substâncias diferentes presentes na maconha; (F) Paricá, epená, cohoba, yopo, vilca, cébil (Anadenanthera peregrina, A. colubrina, Virola sp.), utilizada por grupos indígenas, por exemplo, na fronteira entre Brasil e Venezuela - os Yanomami - como um pó para inalação (rapé) (g) Jurema (Mimosa hostilis), uma leguminosa que foi utilizada para caçar e guerrear entre os índios do nordeste brasileiros e atualmente é usada, entre outras finalidades, para fins mágicos entre raizeiros e indígenas. (h) Ayahuasca (Banisteriopsis sp. e combinações), seu uso foi relatado entre, pelo menos, 72 grupos indígenas diferentes que habitam, na maioria dos casos, a Amazônia Ocidental. Etc...
Neste pequeno trabalho pretendo realizar uma abordagem cultural e simbólica da importância que estes seres divinos possuem nos diversos contextos em que são utilizados. De uma maneira geral podemos afirmar que estas substâncias estão envolvidas em aspectos mágico-religiosos, embora existam exceções. Não pretendo realizar um estudo minucioso de cada um destes vegetais, mas tentar abordar de uma maneira genérica o importante papel que estes possuem na cosmologia, ordem social, ritos de passagem, rituais de cura e no processo do morrer nas culturas em que são consumidos. Historicamente, estas plantas, consideradas plantas-espíritos ou plantasprofessoras, vêm sendo usadas para diversos fins (finalidades e, respectivamente, citações bibliográficas, não exaustivas):



Reforço da identidade ética, Coesão social, Transmissão de valores culturais , Produção artística, Morte simbólica do ego, Autoconhecimento , Resolução de conflitos sociais, Feitiçaria , Caça, Obtenção de poder político e cósmico , Metamorfosear-se em animais, Divinação, Comunicação com as divindades e aconselhamento pelos espíritos, Atingir estados de , Treinamento do xamã , Indução de sonhos para prever o futuro, Profecias, Telepatia; clarividência, Descobrir o paradeiro de pessoas desaparecidas, Obter visões diagnósticas para a prescrição de remédios, Identificar o inimigo causador do mal ou o agente causador do mal, Analgésico, anti-espasmódico, anti-diurético, anti-reumático, contra picadas de cobra, anti-febre-amarela, Atingir estados de intoxicação, êxtase e periódicos estados prazerosos.
Observando a vasta, mas não exaustiva lista de possibilidades de usos destes agentes, verificamos que o uso de drogas em nossa sociedade (de uma maneira patológica) é a exceção, e não a regra. Pesquisadores respeitados como Abert Hofmann(descobridor do LSD-25) e Giorgio Samorini referem-se a esta atual situação do uso de drogas em nossa cultura como uma desacralização/profanação (Hofmann) ou desculturação (Samorini, 2002). O que estes autores (e tantos outros) afirmam é que o uso destes professores vegetais sempre esteve cercado de ética, moral e regras de conduta ratificadas pelos valores culturais. O antropólogo Edward MacRae (1992) disserta sobre como sanções socioculturais empregadas por grupos que fazem um uso ritualizado de psicoativos são mais eficazes que as leis proibicionistas de grande parte das nações quando comparamos os efeitos sociais do controle e forma de uso destes diferentes pontos de vista. Alberto Groisman (2000), em sua tese de doutorado sobre as igrejas do Santo Daime na Holanda, afirma que, na maioria das vezes, os aspectos socioculturais são mais importantes (e, inclusive, moldam/controlam) nas experiências com psicoativos do que os aspectos psicofarmacológicos. Com estes argumentos – que não são exaustivos – podemos observar e, pelo menos, reavaliar nossa postura perante o atual modelo de relação que temos com os psicoativos em geral e, especialmente, com os enteógenos. Esta atual "guerra contra as drogas" mostra-se, cada vez mais, uma guerra etnocida, como já havia dito o antropólogo Anthony Henman em 1986.

Fontes e livros e pesquisas retirada do : Nucleo De Estudos interdisciplinares Sobre Psicoativos

http://www.neip.info/


Enteógenos: 


O uso ritualístico de plantas psicoativas: Uma abordagem transpessoal

Introdução

Diversas culturas, durante toda a história das grandes civilizações do mundo, relatam a ingestão de plantas ou fungos, na forma de bebida, do material fresco ou outros preparos em seus rituais para devoção de deuses, contato com espíritos, sessões de clarividência, adivinhação, sessões de cura e etc. Como exemplo o Soma, bebida da cultura védica, que tornaria o homem que a bebesse um semideus. Temos também a Ambrósia dos gregos, bebida utilizada em rituais religiosos dentro dos grandes templos. Culturas latinoamericanas se utilizavam de plantas hoje conhecidas como Ipoméia e Sálvia em seus rituais. A Ayahuasca, bebida dos povos da Amazônia, inclusive tribos indígenas brasileiras, também conhecida como yagé ou hoasca.. Xamãs siberianos se utilizavam da espécie Amanita muscaria, um fungo, durante seus ritos espirituais. O Wachuman e o Peyote, ambos cactos, utilizado por outros povos mexicanos em rituais de iniciação xamânica. Muitos outros relatos da utilização de plantas alucinógenas são mencionados nas mais diversas literaturas antropológicas e etnofarmacêuticas.
A palavra enteógeno é um neologismo sugerido por pesquisadores na década
de 70 (RUCK et al, 1979), e é derivado do grego antigo (entheos) = deus dentro, ou inspiração divina, e (genno) = fazer nascer / gerar. Em outras palavras, enteógeno pode ser definido como a substância que gera ou traz em evidência a divindade interna ou inspiração divina. Esta etimologia está ligada em grande parte ao uso ritualístico com propósitos espirituais, mas também podemos ver simplesmente que esta denominação demonstra uma maneira mais respeitosa e cuidadosa de lidar com estas substâncias, ou que elas são fontes de intensa inspiração. Se ligarmos a palavra divindade ao conceito de Inconsciente Coletivo de Jung, ou da Consciência Transpessoal de Grof, os enteógenos podem ser vistos como instrumentos que, corretamente utilizados, permitem um contato seguro com os reinos profundos da psique. Tais plantas possuem diversas moléculas, como alcalóides, indolaminas, feniletilaminas metoxiladas e etc, que quando ingeridas podem causar alterações significativas na capacidade cognitiva, padrões de percepção e na dinâmica cerebral. Muitas vezes a utilização de plantas enteogênicas ou “plantas do poder”, como são também conhecidas por diversos povos hoje em dia, está intimamente relacionada com sessões de cura que, segundo relatos, poderiam ter erradicado diversos transtornos físicos, psicológicos espirituais e etc.
Meu principal objetivo neste trabalho é discutir os estados mentais alcançados pela modificação da capacidade cognitiva usual através da utilização de plantas enteogênicas, sempre mencionando diversas pesquisas no ramo da psicologia e biologia, eventualmente comparando-os com outros estados místicos, comumente encontrados nas literaturas religiosas. 






A expansão da consciência

De acordo com a ciência atual, a ingestão de enteógenos levaria à alucinação. É bastante comum encontrarmos o termo “alucinógeno” na literatura especializada, para designar as plantas que levam a mente à este tipo de experiência. Esses episódios de alucinação seriam caracterizados pelo funcionamento desordenado da mente, devido às diversas substâncias ingeridas, que acabariam por se alojar e ocupar os receptores das células cerebrais. 
Um dos argumentos para a utilização de enteógenos fala que estas plantas funcionariam como ferramentas para a expansão ou alteração da capacidade cognitiva, proporcionando toda uma nova gama de percepções – até então inalcançáveis– que possibilitariam o indivíduo tomar conhecimento das diferentes esferas de nossa realidade. A mente, no entanto, pode sofrer profundas mudanças no seu funcionamento por uma grande variedade de processos patológicos – danos traumáticos no cérebro, intoxicações por venenos, infecções, problemas circulatórios e etc – o que, para algumas pessoas, desacredita tal argumento. 
Tais modificações patológicas, obviamente, poderiam ser encaixadas dentro da categoria de “estados não usuais de consciência”, na qual muitas vezes são citadas as manifestações psicológicas derivadas da ingestão de enteógenos. No entanto, diversas áreas da psicologia mostram que os estados alcançados pela utilização de enteógenos distinguem-se, convincentemente, dos outros estados patológicos típicos. A fim de diferenciar os estados patológicos dos estados alcançados pela ingestão de enteógenos – como também dos estados de êxtases espontâneos e/ou induzidos , Grof (1992) deu-lhes o nome de estados holotrópicos. Essa palavra significa, literalmente, movendo-se em direção do Todo (“holo” vem do grego e significa todo, trópico vem do latim trepein = movendo-se em direção à). Citando a definição psicológica do termo, transcrevo aqui um trecho do livro “O Jogo Cósmico” de Stanislav Grof:
“Os estados holotrópicos são caracterizados por uma transformação específica da consciência, associado com mudanças de percepção em todas as áreas dos sentidos, por emoções intensas e usualmente incomuns, bem como por profundas alterações do processo de pensar. Eles usualmente também são acompanhados por intensa variedade de manifestações psicossomáticas e por formas de comportamento não convencionais. A consciência muda qualitativamente de um modo muito profundo e fundamental, mas diferentes das condições delirantes, ela não fica prejudicada num grau elevado. Nos estados holotrópicos, nós permanecemos tipicamente orientados e não perdemos totalmente a percepção do mundo do dia-a-dia. Nós experimentamos duas diferentes realidades. Um aspecto particularmente interessante dos estados holotrópicos é seu efeito na mente das pessoas. A inteligência não é prejudicada, mas passa a operar de modo que é significativamente diferente daquele do dia-a-dia. Podemos atingir profundos insights psicológicos a respeito da nossa própria historia e conduta, da dinâmica do inconsciente, dificuldades emocionais e outros problemas pessoais”.






Ferramentas do Sagrado?

Diversas religiões citam os estados místicos alcançados por seus protagonistas. Vozes, experiências visionárias, intuições e clarividência são bastante mencionadas nas mais diversas literaturas religiosas. Gautama Buda, por exemplo, que durante episódios de meditação teve visões recorrentes de Mara, personificação da ilusão gerada pelos prazeres físicos e mentais, que impedia-o de alcançar a iluminação. O apóstolo João, que foi arrebatado por uma forte experiência visionária, que acabou gerando o livro do Apocalipse da tradição Cristã. Enfim.
É interessante observar como muitos relatos de experiências enteogênicas se assemelham em vários aspectos aos relatos místicos presentes em diversas literaturas religiosas. Os próprios exemplos mencionados acima mostram como pode ser curiosa a questão. Os efeitos da ingestão de plantas psicoativas incluem visões das mais diferentes formas e objetos, encontro com divindades, sensações de completo pânico até sensações de êxtases espirituais, vozes, falta de identificação com o plano material, identificação com outras formas de vida, com a Natureza, com objetos inorgânicos e etc. Sessões enteogênicas podem também trazer insights muito parecidos àqueles descritos em religiões diversas como o Budismo, Hinduismo e o Cristianismo.
Grof, em seu artigo denominado “Variedades das experiências transpessoais: observações da psicoterapia com LSD”(1972), mostra de forma científica que substâncias químicas como o LSD e a mescalina, por exemplo, podem derrubar, consideravelmente, as barreiras psicológicas criadas pela esfera consciente da mente, expondo todo o inconsciente através de manifestações emocionais, visões simbólicas e etc, reconhecendo o valor terapêutico de tais substâncias. O paciente, durante o período de intoxicação, seria capaz de reviver certos episódios de sua vida, e através de uma ajuda adequada, adquirir outra compreensão sobre o processo acontecido, o que geraria melhoras significativas - psicologicamente falando - em sua qualidade de vida. A psicologia atual, no entanto, não vê diferenças entre os estados místicos e processos patológicos como a esquizofrenia e psicose. Madre Tereza de Calcutá, São João da Cruz e Maomé seriam esquizofrênicos, epiléticos, ou psicóticos, segundo o paradigma científico atual. Dentro deste ponto de vista, a ingestão de enteógenos com finalidades ritualísticas seria apenas mais uma forma de “alucinose”. Experiências psicodélicas podem deixar a mente num estado suscetível à vozes, visões, variações extremas e polares de humor, além da grande carga emotiva associada. 
Em seu artigo, “Obstáculos e Vicissitudes da Prática Espiritual”, Jack Kornfield - doutor em psicologia e monge budista ordenado - nos mostra interessantes episódios ocorridos em grandes retiros de meditação, dirigidos por ele e seu grupo de profissionais capacitados. Jack aborda as diferentes experiências que podem ser alcançadas com práticas meditativas intensas, orientadas por um grupo capacitado:
“Com o desenvolvimento da concentração, uma grande variedade das chamadas experiências espirituais começa a acontecer (...) Esse processo em geral envolve tremores e até fortes liberações de energias físicas – chamadas kriyas – no corpo, capazes de assustar algumas pessoas.”

“Lembro-me do meu retiro de um ano como monge, (...)meditava umas oito horas por dia, alternando da posição sentada com o movimento. Num certo momento, surgiu uma forte liberação e os meus braços começaram a se agitar involuntariamente como se eu fosse uma galinha ou outra ave. Tentei para-los e mal pude fazê-los..” 

“Também é possível ver várias luzes coloridas, no início azuis, verdes ou púrpuras. E com o aumento da prática surgem luzes douradas e brancas e por fim uma luz muito intensa. Pode ser algo semelhante a olhar diretamente para um sol. Do mesmo modo , todo o corpo pode dissolver-se em luz.(...) O corpo pode parecer muito alto ou muito pequeno. Podemos sentir que estamos flutuando, ao ponto de termos que abrir os olhos e nos beliscarmos para sentirmos que ainda estamos no chão. Isso aconteceu comigo muitas vezes.”

“ Há grandes aberturas dos sentidos que podem tornar-se incrivelmente aprimorados. Podemos ouvir, sentir cheiros e ver de uma maneira que supera em muito a percepção cotidiana.(...) O mesmo pode ocorrer com os ouvidos ou com os olhos, havendo além disso a abertura mediúnica, quando até é possível tocar visões, odores e coisas que se acham num plano temporal distinto, ter visões de vidas passadas e de eventos futuros, etc. “ 

O próprio Gautama Budha afirmava à seus discípulos que tais condições eram normais no decorrer da prática meditativa. O interessante, no entanto, é compararmos tais relatos com os sintomas de experiências psicodélicas. Observações de luzes fortes além de outras alterações no padrão de percepção são os sintomas mais comuns durante experiências enteogênicas. 
Argumenta-se que os episódios de visões e mudanças no padrão de percepção sejam apenas lapsos alucinatórios, decorrentes da intoxicação por plantas psicoativas. Mas o fato é que muitos relatos de estados místicos, e experiências religiosas rigorosas de diversas religiões se assemelham, surpreendentemente, com os sintomas causados por intoxicações com substâncias como LSD, mescalina e DMT’s – sendo todas essas substâncias análogas às encontradas em plantas psicoativas utilizadas ritualisticamente. Os enteógenos, utilizados dentro de um contexto adequado, com uma finalidade séria, estariam funcionando como desencadeadores de experiências místicas. Seus usuários, aparentemente, teriam a capacidade de acessar níveis distintos da psique humana, ou mesmo do Inconsciente Coletivo – como descreve Jung - vestidos com os mais variados arquétipos presentes na consciência humana.

Outro exemplo interessante é o de Madre Teresa de Calcutá. Ela descreve sua trajetória mística em seu livro intitulado “Castelo Interior”, de 1961. Nele, ela relata toda sua experiência religiosa como freira. O interessante de se observar em relatos de experiências místicas é o caráter emotivo, e suas variações bruscas, e até mesmo antagônicas, do humor. A Preparação de Teresa para tais experiências consistia no abandono total de suas atividades e envolvimento com o mundo social, voltando toda sua atenção e energia para essa fonte interna que chamava de Deus :

“A pessoa fecha involuntariamente os olhos e deseja a solidão; e sem artifício, parece que vai se construindo o edifício para a oração; porque estes sentidos e coisas externas parecem que vão perdendo controle sobre si, enquanto a alma recobra o controle que tinha de si mesma.”

Vemos neste exemplo toda a vontade de se isolar dos feitos sociais por parte de Teresa. Como se fosse um preço à pagar afim de tornar possível sua comunicação com o que chama de Fonte Divina. O interessante neste caso é comparar o feito de algumas experiências holotrópicas, mais especificamente as enteogênicas, na forma como a qual o indivíduo se relaciona com a sociedade. É bastante comum indivíduos que passam por experiências enteogênicas sérias, de cunho ritualístico, sentirem certo desprendimento das questões mundanas. A vida, para eles ganha uma “nova importância, um novo sentido”. Responsabilidades sociais, assim como a sociedade, muitas vezes perdem o foco principal do “enteonauta” – como costumam ser chamados. O questionamento que quero lançar no presente trabalho baseia-se na semelhança entre os insights extraídos de experiências com plantas psicoativas, dentro de uma ótica ritualística e responsável, e as experiências místicas largamente citadas em todo o mundo, seja por ícones religiosos, ou vivências pessoais.
Diversos pesquisadores somam esforços a fim de entender um pouco mais toda essa dinâmica da mente. Áreas como a psicologia transpessoal, a tanatologia e áreas específicas da neurobiologia se esforçam pra recriar os mesmos estados alterados de consciência gerados por experiências enteogênicas. Grof, um dos principais pesquisadores na área da psicologia transpessoal, criou um método chamado de respiração holotrópica, onde os participantes conseguem atingir experiências de estados não ordinários de consciência através de técnicas respiratórias em um contexto determinado. Outras áreas se utilizam da privação dos sentidos para produzir experiências semelhantes. A privação de sono e de alimentos, também pode gerar resultados interessantes. Dentro deste contexto, o jejum, bastante utilizado pelos místicos antigos – e ainda largamente estimulado entre algumas religiões – passa a ter um papel importante dentro da exploração sistemática da psique humana e seus potenciais. A própria meditação, e os processos por ela desencadeados, também é uma importante tecnologia de auto-exploração. 
No final, o quadro nos mostra que diversos processos como a privação do sono, de alimentos, dos sentidos e meditação, por exemplo, são capazes de levar á mente à um estado alterado, capaz de permear os fatos da vida e características comportamentais do individuo com toda uma nova ordem de importância e significações. Os resultados nos forçam a pensar que talvez o mesmo se de com a utilização responsável de certas plantas psicoativas. A literatura sobre os estados mentais alcançados por tecnologias espirituais é muito vasta. Entretanto, o ponto no qual quero focar, consiste na comparação do estado mental acometido por todas essas ferramentas auto-exploratórias com os estados proporcionados pela utilização de plantas psicoativas dentro de um contexto de ritualístico/religioso. Peculiaridades à parte, todos se mostram capazes de gerar estados tipicamente descritos como alucinatórios, caracterizados por vozes, visões e insights aparentemente sem sentido para um observador externo. Da mesma forma, todos são capazes de levar o individuo a uma reflexão profunda sobre questões essenciais da existência humana, como também têm a capacidade de trazer novos pontos de vista e novas formas de conceber a dinâmica humana.
Meu objetivo aqui não é desacreditar as experiências verdadeiramente místicas, desenvolvidas por personagens importantes das mais diversas tradições religiosas. Ao contrário, quero sistematizar as experiências decorridas através da prática correta e orientada das mais diversas técnicas descritas nas grandes doutrinas espirituais, e técnicas psicológicas de exploração da psique, de forma a enquadrar os diferentes relatos de experiências psicodélicas, gerados pela utilização ritualística de plantas ou fungos psicoativos. Todos podem assumir caráter extremamente emotivo, gerando desde polaridade emocional, até a sensação única de paz perfeita ou mesmo desespero, como também quadros visionários-simbólicos. Podem gerar momentos de total pacificidade do individuo, assim como a imersão em uma nova forma de conceber a vida e suas dimensões, sendo capaz de torna-lo mais ético e reflexivo sobre questões como respeito e amor ao próximo.
A Psicologia Transpessoal nasce como uma ciência que tem como finalidade estudar casos que a psicologia ortodoxa, de uma forma geral, se nega a estudar. Seu paradigma parte do principio de que a consciência, muitas vezes, é capaz de transcender o domínio pessoal, o que possibilita a observação de fenômenos convincentes de experienciações de vidas passadas, relatos de acessos a informações oriundas de tempo/espaço diferentes, telepatia, identificação com outras criaturas, entre outras manifestações que colocam em xeque nossa forma atual de conceber a consciência. É dentro deste contexto que tentamos colocar em debate a utilização ritualística de enteógenos. Como as outras ferramentas já mencionadas acima, os enteógenos são capazes de levar a mente à domínios repletos de simbolismos e significações. Se levarmos em consideração que as experiências místicas naturais são acessos espontâneos à estes mesmos domínios arquetípicos, os enteógenos funcionariam como facilitadores de acesso à essa esfera da inconsciência humana. Poderíamos estender, igualmente, a mesma implicação às outras ferramentas: todas elas passariam a ser praticas que visariam a entrada gradual e consciente do individuo nesta nova esfera mental. Assim, da mesma forma que práticas espirituais como a meditação a dança e a oração, a ingestão responsável dos enteógenos poderia ser avaliada como uma forma segura de colocar o indivíduo em contato com as mais diferentes áreas de sua mente-corpo, além das esferas simbólico-sagradas da existência. Há ai, através da utilização correta de “plantas do poder”, um grande potencial de harmonização individual, contribuindo com a soma de diversos valores éticos e morais, tão necessários para nós em nossa sociedade extravagante, consumista e tão carente de valores sólidos.
O termo “religião” vem do latim religare, que significa literalmente religação. Se refere a religação do indivíduo com um estado divino que o torne mais sábio, pacífico, espontâneo, criativo e etc. As mais diversas religiões, consistem em técnicas par a religação individual. Cada uma enfatisa suas técnicas em determinados pontos, como as diferentes formas de yoga, que focam a compaixão, ou a devoção. A tradição budista que foca na meditação, sem mencionar uma entidade superior, como Deus. Cada uma oferece à seus discipulos técnicas de religação que enfatisam diferentes aspectos de uma personalidade. No entanto, o objetivo continua sendo o mesmo: harmonizar o individuo, tornando-o mais pacífico e criativo.
A partir das evidencias que comparam as ferramentas espirituais de certas doutrinas e seus efeitos para os indivíduos com a utilização ritualística de plantas psicoativas, a consumação de enteógenos pode servir como mais uma ferramenta de religação espiritual, sendo capaz de confrontar um individuo com suas fobias, falsas concepções, neuroses, manias e egoísmos, dando-o novas formas de pensar, de entender a vida e suas possibilidades. Enteógenos podem, aparentemente, levar os indivíduos aos mesmos estados mentais atingidos por técnicas espirituais como danças, orações, devoção e meditação, por exemplo, o que validaria, portanto, sua utilização como ferramenta de evolução e exploração mental/espiritual.




Referências Bibliográficas

Milhomens, N. 1997, O misticismo à luz da Ciência.175p. Editora Gnose.
De Souza, P. A. 2006, Um Químico e o Curandeiro: Plantas de Poder, Xamãs e as Moléculas do Misticismo.110p. Portal Literário Editora.
Silva, G., Homenko, R.1995. Budismo: Psicologia do Autoconhecimento. 306p. Editora Pensamento/Cultrix.
Wapnick K., Prince, R., Grof, S., Assagioli, R., Souza, D. 1978. Experiência Cósmica e Psicose. Pequeno Tratado de Psicologia Transpessoal IV/V. 142 p. Editora Vozes. 
Grof, S., Observations of LSD Psychoterapy, Journal of Transpersonal Psychology, vol.4, nº1,1972, p.45-80.
Kornfield, J. Obstáculos e Vicissitudes da Prática Espiritual (extraído do livro Emergência Espiritual – Grof, S.)
Grof, S., O Jogo Cósmico
Berger Sacramento, R., 2008. O Potencial Terapêutico dos Enteógenos.63 p TCC – PUC, Rio de Janeiro.
Griffiths, R., 2008. Mystical-type experiences occasioned by psilocybin mediate
the attribution of personal meaning and spiritual significance 14 months later. Journal of Psychopharmacology, Julho.

24 comentários:

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